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Muito além de “Jolene”: Dolly Parton deixa uma obra que atravessou música, cinema, teatro e milhões de livros

Muito além de “Jolene”: Dolly Parton deixa uma obra que atravessou música, cinema, teatro e milhões de livros
Foto: De Divulgação

Cantora morreu aos 80 anos; compositora de “I Will Always Love You” também construiu carreira no cinema, escreveu um musical da Broadway e criou um dos maiores programas de incentivo à leitura infantil do mundo

Existem artistas que acumulam sucessos.
Dolly Parton acumulou maneiras diferentes de permanecer.

A cantora, compositora, atriz, empresária e filantropa morreu nesta terça-feira, 25 de agosto, aos 80 anos, em Nashville. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos, venceu 11 Grammys, incluindo o prêmio pelo conjunto da obra, e escreveu milhares de músicas.

Mas talvez a dimensão de Dolly seja mais fácil de perceber quando a música deixa de ser o único ponto de partida.

Porque ela também esteve no cinema, no teatro, nos negócios, na televisão e, silenciosamente, dentro da casa de milhões de crianças que recebiam livros pelo correio.

Dolly Parton foi uma das maiores artistas da música country. Mas reduzi-la a isso seria pequeno demais. Sua obra atravessou gêneros, formatos e gerações porque partia de uma combinação rara: extrema consciência de imagem, domínio absoluto da canção popular e uma inteligência muito fina sobre o que significa contar histórias.

Ela transformou a própria figura em personagem antes que isso virasse obrigação para artistas pop. Cabelos enormes, roupas brilhantes, humor autodepreciativo, sotaque do Tennessee, decotes, cílios, unhas, frases prontas, generosidade pública e uma aparente leveza que nunca escondia completamente a precisão de quem sabia o que estava fazendo.

Dolly parecia excesso.
Mas era construção.

E, por trás da construção, havia uma compositora capaz de escrever canções que sobreviveram a tudo: ao tempo, às versões, às modas e até à própria voz que as lançou.

Antes de Whitney, a música era de Dolly

Uma das melhores demonstrações de seu tamanho como compositora está justamente em uma canção que parte do público associa primeiro a outra voz.

“I Will Always Love You” foi escrita e gravada por Dolly Parton em 1973 como uma despedida profissional de Porter Wagoner, parceiro que havia sido decisivo para sua ascensão no country. Era uma música de separação sem raiva, uma carta elegante para encerrar uma etapa sem destruir o afeto que havia existido ali.

Quase duas décadas depois, Whitney Houston transformaria a canção em fenômeno mundial ao gravá-la para “O Guarda-Costas”.

A versão de Houston não apagou Dolly.
Fez o contrário.

Mostrou que, por trás da cantora de cabelos enormes, roupas de brilho e persona cuidadosamente exagerada, havia uma compositora capaz de escrever músicas que sobreviviam completamente à sua própria interpretação.

Essa talvez seja a medida mais rara de um compositor popular: quando a canção continua reconhecível mesmo depois de atravessar outra voz, outro gênero, outro tempo e outro público.

“Jolene”, “Coat of Many Colors” e “9 to 5” seguiram caminhos semelhantes. Tornaram-se maiores do que os discos em que nasceram. “Jolene” virou uma espécie de arquétipo da súplica amorosa. “Coat of Many Colors” transformou uma memória de infância em narrativa sobre pobreza, orgulho e dignidade. “9 to 5” condensou, com humor e precisão pop, a exaustão de uma rotina de trabalho que muita gente reconhecia.

Dolly escrevia canções como quem sabia que uma boa história precisa caber na boca de qualquer pessoa.

E cabia.
Hollywood descobriu que ela também sabia fazer comédia
Em 1980, Dolly protagonizou “Como Eliminar Seu Chefe”, ao lado de Jane Fonda e Lily Tomlin.

O filme fez de “9 to 5” uma de suas músicas mais conhecidas e colocou a cantora definitivamente dentro da cultura cinematográfica. A comédia sobre três mulheres que se unem contra um chefe machista encontrou em Dolly uma presença quase imediata: engraçada, carismática, popular e impossível de ignorar.

Vieram depois “The Best Little Whorehouse in Texas”, “Rhinestone” e “Flores de Aço”.

O cinema entendeu algo que a música já sabia: Dolly podia parecer maior que a vida, mas nunca parecia artificialmente distante. Mesmo quando estava toda montada, havia nela uma sensação de proximidade. Era uma estrela que fazia questão de parecer acessível, como se o brilho fosse parte da conversa, não uma barreira.

Décadas mais tarde, o caminho faria o percurso contrário.

O filme “9 to 5” virou “9 to 5: The Musical”, e Dolly escreveu pessoalmente músicas e letras para a adaptação. A produção chegou à Broadway em 2009 e recebeu quatro indicações ao Tony, incluindo Melhor Trilha Original para Parton.

Era outro território, e ainda assim essencialmente a mesma habilidade.

Contar histórias em música.

No teatro musical, Dolly encontrou uma linguagem que combinava com sua própria lógica artística: personagens que se revelam cantando, humor como ferramenta de crítica social e uma relação direta com o público. “9 to 5” nunca precisou fingir ser outra coisa. Era uma comédia musical popular, feminista em seu próprio registro, ancorada na capacidade de Dolly de transformar trabalho, abuso de poder e solidariedade feminina em canção.

Mais de 325 milhões de livros

Talvez o número mais impressionante de sua trajetória, entretanto, não apareça em nenhuma parada musical.

Em 1995, Dolly criou a Imagination Library, inspirada pela experiência do pai, que não sabia ler.

O projeto começou distribuindo gratuitamente livros para crianças de sua região natal no Tennessee. Cresceu.

Em junho de 2026, a iniciativa já enviava mais de 3,5 milhões de livros todos os meses e havia ultrapassado 325 milhões de exemplares distribuídos para crianças nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Irlanda.

É um legado difícil de dimensionar porque não depende de uma imagem única. Não é uma música tocando em estádios. Não é um filme reprisado na televisão. Não é um prêmio entregue no palco.

É uma criança abrindo a caixa de correio.
Um livro chegando antes mesmo que ela saiba ler sozinha.
Uma família criando um ritual.

Dolly entendeu que alfabetização também é afeto. Que o acesso ao livro, especialmente nos primeiros anos de vida, não muda apenas a relação de uma criança com a escola, mas também com imaginação, linguagem, escuta e futuro.

Sua filantropia incluiu ainda apoio a vítimas de desastres naturais, hospitais infantis e pesquisa médica. Uma doação de US$ 1 milhão à Universidade Vanderbilt ajudou a financiar pesquisas relacionadas à vacina da Moderna contra a Covid-19.

Mas a Imagination Library talvez seja sua obra mais silenciosa e mais radical. Um projeto que não pedia que crianças gostassem de Dolly Parton. Nem que soubessem quem ela era. Apenas que tivessem livros.

Como alguém tão específico conseguiu ser tão universal?
Talvez essa seja a parte mais curiosa de Dolly Parton.
Ela nunca tentou parecer neutra.

Falava com sotaque. Vestia-se de maneira deliberadamente exagerada. Cantava sobre o lugar onde nasceu. Transformou a própria imagem em um exercício quase permanente de humor. Fazia piada de si antes que os outros fizessem. Abraçava a artificialidade da aparência sem abrir mão de uma sinceridade emocional muito nítida.

E, paradoxalmente, tornou-se uma artista capaz de atravessar gerações, gêneros musicais e grupos sociais muito diferentes.

Dolly era profundamente country, mas não ficou presa ao country. Era religiosa, mas tornou-se ícone de públicos LGBTQIA+. Era empresária, mas construiu uma imagem pública associada à generosidade. Era tradicional em muitos aspectos, mas frequentemente parecia mais livre do que artistas muito mais interessados em parecer modernos.

Essa combinação explica por que sua morte produziu homenagens vindas de lugares tão distintos. Artistas do country, do pop, do rock, do cinema e do teatro reagiram como se perdessem alguém familiar. Em Londres, a Guarda do Rei tocou “9 to 5” diante do Palácio de Buckingham.

A imagem era enorme.
Mas Dolly sempre insistiu que seriam as canções que ficariam.
Estava parcialmente certa.

As canções ficam.
Os filmes também.
O musical também.

O parque, os livros, as frases, as histórias e a ideia de que uma mulher saída de uma região pobre do Tennessee conseguiu transformar excesso em poder, brilho em linguagem e generosidade em política pública também ficam.

Talvez seja por isso que Dolly Parton pareça difícil de colocar em uma única categoria.

Ela foi cantora country, sim.

Mas também foi uma autora popular no sentido mais amplo do termo: alguém que escreveu canções, personagens, imagens e gestos que circularam pelo mundo sem perder completamente o sotaque de onde vieram.

Sua obra está em “Jolene”.
Está em “I Will Always Love You”.
Está em “9 to 5”.
Está em “Flores de Aço”.
Está no musical da Broadway.

E está, sobretudo, em algum lugar menos visível: uma criança abrindo a caixa de correio e encontrando um livro que chegou porque Dolly Parton achava que ela deveria aprender a ler.

Trajetória

Dolly Parton
Nascimento: 19 de janeiro de 1946, Tennessee, Estados Unidos
Morte: 25 de agosto de 2026, Nashville, Estados Unidos
Ocupações: cantora, compositora, atriz, empresária e filantropa
Principais canções: “Jolene”, “I Will Always Love You”, “Coat of Many Colors”, “9 to 5”, “Here You Come Again” e “Islands in the Stream”
Cinema: “Como Eliminar Seu Chefe”, “The Best Little Whorehouse in Texas”, “Rhinestone” e “Flores de Aço”
Teatro: “9 to 5: The Musical”
Filantropia: fundadora da Dolly Parton’s Imagination Library
Legado: mais de 100 milhões de discos vendidos e mais de 325 milhões de livros distribuídos por seu programa de incentivo à leitura infantil

Quem aparece nesta matériaDolly Parton
MúsicaIsabel Branquinha

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