A peça foi escrita para um ator com Alzheimer interpretar um ator com Alzheimer
Indicado ao 37º Prêmio Shell de melhor ator pelo papel, Genezio de Barros divide a cena com Iuri Saraiva em "Uma Velha Canção, Quase Esquecida", da irlandesa Deirdre Kinahan, no Teatro Fashion Mall, de 31 de outubro a 15 de novembro.
A dramaturga irlandesa Deirdre Kinahan escreveu “Uma Velha Canção, Quase Esquecida” para Bryan Murray, nome de referência das artes cênicas na Irlanda, com mais de cinco décadas entre teatro, TV e cinema. Diagnosticado com Alzheimer em 2019, Murray vinha se afastando dos palcos e voltou em 2023 justamente para interpretar James O'Brien, personagem que ficciona a própria trajetória dele.
A montagem brasileira do texto chega ao Rio de Janeiro para curta temporada no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, depois de passar pelo Sesc Pompeia, em São Paulo. A estreia é em 31 de outubro, com sessões aos sábados, às 18h, e domingos, às 19h, até 15 de novembro. Os ingressos custam R$ 120 e R$ 60 (meia).
Com direção e tradução de Domingos Nunez, o espetáculo reúne Genezio de Barros, indicado ao 37º Prêmio Shell de melhor ator por este trabalho, e Iuri Saraiva, já premiado com o APCA e o Bibi Ferreira por outras montagens. Os dois interpretam o mesmo personagem em momentos diferentes da vida.
Dois atores, um homem, dois tempos
James O'Brien é um ator velho que escreve obstinadamente para manter vivas as pessoas e os fatos que marcaram sua trajetória. Durante um concerto no asilo onde mora, movido pela música e provocado pela presença da própria versão mais jovem, tenta reconstruir memórias de carreira, família e amores. Aos poucos, passado e presente se fundem.
A autora trata a demência progressiva não apenas como perda, mas como transformação da percepção, da linguagem e da relação do indivíduo com a própria história. Em 2024, Kinahan e Murray receberam juntos a primeira edição do Pratchett Prize, concedido pelo Trinity Centre for Literary and Cultural Translation, pelo trabalho da peça no enfrentamento do estigma associado ao Alzheimer.
Fardos de papel ocupam o palco
A encenação cruza tempos e personagens que vão se encontrando e se sobrepondo. O palco está tomado por grandes fardos de papel, que simbolizam o acúmulo de uma existência e a tentativa de armazenar uma memória que insiste em escapar.
A música é executada ao vivo em cena, com violão, violino e acordeom. A trilha original é do violonista Mario da Silva, que atua ao lado dos músicos Gabriel Paixão e Joyce Sales. O som funciona como projeção da mente do personagem, que, junto com os escritos, tenta reter as lembranças e distinguir o presente do passado.
Para Genezio de Barros, o tom da autora é o que move o trabalho. “O que me motiva neste texto é o cuidado, a generosidade, a leveza com que a autora trata de um assunto tão difícil e ao mesmo tempo tão perto, tão presente na vida de todos nós”, diz. “Quem não tem um parente, um amigo, um conhecido com uma doença degenerativa? Com muita delicadeza ela nos conduz através da personagem a meditar sobre a fragilidade humana, sobre a finitude e principalmente sobre o amor.”
O diretor situa a peça dentro de uma pesquisa de longo prazo. “É um trabalho muito especial pra mim porque é a peça que coroa um projeto de pesquisa da Cia Ludens em torno da representação de deficiências físicas no teatro irlandês desde o começo do século passado até o tempo presente”, afirma Domingos Nunez. “E neste texto, de forma inusitada e muito inspirada, o tema do Alzheimer é tratado com imensa delicadeza, poesia e humor.”
Vinte e três anos de teatro irlandês no Brasil
A Cia Ludens foi fundada em 2003 e dedica seu repertório à dramaturgia irlandesa. Domingos Nunez dirigiu e traduziu todas as produções da companhia, entre elas “Dançando em Lúnassa” e “O Fantástico Reparador de Feridas”, de Brian Friel, “Pedras nos Bolsos”, de Marie Jones, “Bailegangaire”, de Tom Murphy, e “Luvas e Anéis”, de Rosaleen McDonagh. Ele é doutor em estudos linguísticos e literários em inglês pela USP, com residência na National University of Ireland, em Dublin, e foi indicado ao Prêmio Jabuti pela tradução da Coleção Brian Friel.
Deirdre Kinahan nasceu em Dublin em 1968, fundou e dirigiu por 15 anos a companhia Tall Tales e integra a Aosdána, corpo de artistas condecorados por contribuição à vida cultural irlandesa. Sua peça “Knocknashee: a colina das fadas”, de 2002, saiu no Brasil em 2025 pela editora Iluminuras.
A crítica paulistana convergiu sobre a dupla em cena. Para Gabriela Mellão, jurada do Shell, o texto é terreno fértil para Genezio de Barros revelar a potência do seu talento. Bob Souza, jurado da APCA, escreveu que o que permanece ao final não é uma narrativa sobre o Alzheimer, mas uma poética do desaparecimento. Edgar Olímpio de Souza, do Jornal Pauliceia, observou que o ator se move entre a lucidez e o nevoeiro agarrado ao caderno de notas como a um amuleto.
A produção é da Cia Ludens em parceria com o Teatro de Jardim SP, com patrocínio do Consulado Geral da Irlanda em São Paulo.
Serviço
Uma Velha Canção, Quase Esquecida Teatro Fashion Mall, Sala Mauro Mendonça, Shopping Fashion Mall, Estrada da Gávea, 899, 2º piso, São Conrado, Rio de Janeiro
De 31 de outubro a 15 de novembro de 2026 Sábados, às 18h. Domingos, às 19h Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia), no site bileto.sympla.com.br e na bilheteria, de terça a domingo, das 14h às 20h
Capacidade: 220 lugares.
Duração: 65 minutos.
Gênero: drama.
Classificação: 12 anos
Espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Dramaturgia: Deirdre Kinahan.
Tradução e direção: Domingos Nunez
Com Genezio de Barros e Iuri Saraiva.
Músicos em cena: Mario da Silva, Gabriel Paixão e Joyce Sales
Realização: Cia Ludens e Teatro de Jardim SP
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