A camisola que ela comprou para usar no hospital é o figurino da peça, e não será lavada
No solo "O que meu peito carrega sobre mim", com direção de Bia Lessa, Luiza Mariani parte do próprio diagnóstico de câncer para investigar o que a sociedade projetou no peito feminino.
Estreia em 29 de outubro no Teatro Poeira, no Rio, com temporada até 20 de dezembro.
A camisola que Luiza Mariani veste em cena é a mesma que ela comprou para usar no hospital depois da cirurgia. Ao longo dos ensaios, foi usada, costurada, cortada e marcada, acumulando registros de cada dia de trabalho. Não será substituída nem lavada, porque apagar as marcas significaria apagar parte da experiência que constituiu o espetáculo.
“O que meu peito carrega sobre mim” estreia em 29 de outubro no Teatro Poeira, em Botafogo, com direção de Bia Lessa, e segue até 20 de dezembro. O texto e a atuação são da própria atriz, e a produção é dela com Pablo Sanábio. Os ingressos custam R$ 100 e R$ 50 (meia).
Quatro cirurgias, cinco peitos
O ponto de partida é um diagnóstico. “Em novembro de 2024, descobri um carcinoma na mama esquerda, a mesma mama que amamentou às turras duas crianças, a mesma mama que já havia passado por duas cirurgias estéticas na juventude”, conta Luiza Mariani. “Diante desse acontecimento, surgiu a necessidade de escrever. A escrita nasce como fluxo, como desejo de cuspir uma história que ainda estava entalada no peito.”
Não havia intenção de transformar aquilo em teatro. “Em fevereiro de 2025, para finalizar o tratamento, precisei me submeter a uma mastectomia dupla, tirei as duas mamas. Fui então me dando conta de que passei a vida inteira negociando com o meu peito: grande demais, pequeno demais, caído demais, doente demais. Quatro cirurgias, cinco peitos diferentes ao longo da vida.”
Daí vieram as perguntas que organizam o texto. “Por que será que passei uma vida em guerra com o meu peito? Será que toda mulher tem uma história para contar sobre o próprio peito? E os homens? De onde vem a nossa relação com o peito feminino?”
Do relato íntimo, a peça abre caminho para uma investigação histórica. Recolhe significados atribuídos ao peito ao longo do tempo, da Deusa Diana de Éfeso às amas de leite do Brasil colonial, da caça às bruxas na Inquisição ao boom do silicone nos anos 1990.
Tudo acontece em um metro quadrado
No trabalho de Bia Lessa, o espaço cênico não é apenas onde a ação acontece, e sim uma força que age sobre o corpo e impõe condições concretas de movimento. Em “Grande Sertão: Veredas”, os atores estavam confinados numa grande estrutura que funcionava como arena, gaiola e território. Aqui o princípio é levado ao limite: toda a ação se passa em cerca de um metro quadrado.
O palco tradicional é ocupado pela plateia, enquanto a atriz fica diante de uma espécie de beco sem saída. A arquitetura materializa a pergunta que atravessa a obra, que é como não se tornar refém daquilo que a vida e a sociedade impõem.
Esse único metro quadrado se transforma sem parar. O espaço é construído, desfeito e reconstruído diante do espectador, em 65 fragmentos que surgem, desaparecem e se reorganizam. A contrarregragem em cena é feita pelas atrizes convidadas Dani Kupek e Erika Mader.
Para a diretora, o tema justifica o rigor. “O peito nunca foi apenas uma parte do corpo. Foi, e continua sendo, um símbolo sobre o qual cada época projetou seus valores, seus desejos, seus medos e suas interdições”, diz Bia Lessa. “Este trabalho nasce do encontro entre essas duas dimensões: de um lado, a história e a simbologia do peito feminino através dos séculos; de outro, a experiência concreta de uma mulher cujo corpo foi sucessivamente transformado.”
Nada tenta parecer o que não é
Os objetos usados nos ensaios não foram trocados por versões acabadas para a estreia. Jornais, barbantes, fita crepe, linhas, tintas, cadeira, ventilador, cabide e luva de borracha, materiais ordinários encontrados no espaço de trabalho, foram apropriados e impregnados pelo uso. Uma cadeira é uma cadeira. Uma luva de limpeza permanece uma luva de limpeza.
Desde o primeiro dia de trabalho, todos os elementos estavam presentes: texto, luz, figurino, objetos, música, sons, claros e escuros. Tudo foi experimentado ao mesmo tempo, sem hierarquia que colocasse o texto no centro e os demais elementos como ilustração.
A estrutura fragmentária responde à recusa de uma lógica linear. Como escreve Guimarães Rosa, “contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância”.
Por que Bia Lessa
A escolha da direção foi deliberada. “Pensei no nome da Bia porque eu queria ser provocada, conduzida para além da obviedade sugerida pelo texto”, explica Luiza Mariani. “Queria ser convocada a pensar para além de mim, para além daquilo que eu, de alguma forma, já conheço e sei fazer. Bia é uma provocadora alegre, ousada e afetuosa.”
O produtor Pablo Sanábio conta que aceitou o convite por razões pessoais. “O câncer é um assunto que faz parte da minha vida. Tive um câncer na cabeça e hoje sou um paciente em remissão, então, quando a Luiza me convidou para ser sócio dela no projeto, era impossível dizer não”, afirma.
A arquitetura cênica é de Bia Lessa com colaboração de Camila Toledo, o conceito de direção de arte e vestimenta é de Oskar Metsavaht e Juliana Suassuna, e a música original é de Dany Roland.
Serviço
O que meu peito carrega sobre mim Teatro Poeira, Rua São João Batista, 104, Botafogo, Rio de Janeiro
De 29 de outubro a 20 de dezembro de 2026
Quintas, sextas e sábados, às 20h.
Domingos, às 18h Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), pelo Sympla
Texto e atuação: Luiza Mariani.
Concepção e direção geral: Bia Lessa
Atrizes convidadas: Dani Kupek e Erika Mader
Geografia cênica: Bia Lessa, com colaboração de Camila Toledo
Trilha sonora e design de som: Dany Roland
Produção: Luiza Mariani e Pablo Sanábio
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