Wagner Moura vai a julgamento em peça de Christiane Jatahy que transforma o público em júri

Em A Trial, que faz sua estreia britânica no Festival Internacional de Edimburgo, 11 espectadores decidem se Thomas Stockmann é defensor da verdade ou inimigo do povo

Wagner Moura vai a julgamento em peça de Christiane Jatahy que transforma o público em júri
Wagner Moura, durante o Festival de Cannes de 2025, protagoniza A Trial – after An Enemy of the People, dirigida por Christiane Jatahy. Crédito: Foto: Harald Krichel/WikiPortraits, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Nesta sexta-feira, 7 de agosto, 11 pessoas deixarão a plateia do Lyceum, em Edimburgo, e se sentarão perto de Wagner Moura. Não estarão ali para ver a peça mais de perto. Terão de julgá-lo.

Escolhidos por sorteio entre os espectadores inscritos antes da apresentação, eles formarão o júri de A Trial – after An Enemy of the People. Ao fim da sessão, decidirão se Thomas Stockmann, personagem de Moura, é inocente ou se merece a acusação que o acompanha desde Henrik Ibsen: inimigo do povo.

Dirigida por Christiane Jatahy, a montagem faz sua estreia britânica no Festival Internacional de Edimburgo, com cinco apresentações entre 7 e 10 de agosto. É a primeira parceria entre a diretora e Moura e uma continuação de Um Inimigo do Povo, peça escrita por Ibsen em 1882.

Jatahy não remonta o clássico. Parte de onde Ibsen parou.

A pergunta agora é o que acontece depois que a denúncia foi feita, a cidade escolheu não ouvir e o homem que dizia defender a verdade passou a acreditar que estava acima da maioria.

O julgamento que Ibsen não escreveu

Na peça original, Stockmann descobre que as águas do balneário de sua cidade estão contaminadas. Tornar o caso público protegeria moradores e visitantes, mas também ameaçaria a principal fonte de renda do município.

O médico perde apoio, entra em conflito com o irmão — prefeito da cidade — e termina tratado como inimigo pela mesma comunidade que tentou alertar.

A Trial o encontra depois dessa derrota.

A história foi transferida para o fictício Vale do Rio Vermelho, no Brasil contemporâneo. Stockmann tenta recuperar o direito de se defender diante de uma população que depende economicamente do turismo. De um lado, estão o médico e sua filha. Do outro, Peter Stockmann, que reivindica falar em nome dos moradores que podem ficar sem trabalho caso o balneário seja fechado.

Não há juiz nem advogados conduzindo o processo. Há depoimentos, documentos, imagens filmadas e duas versões de um conflito em que os fatos não eliminam as consequências.

A água está contaminada.

Fechar o balneário, porém, pode levar a cidade à falência.

Jatahy se interessa justamente pelo momento em que Stockmann deixa de ser um herói confortável. Convencido de que está certo, ele passa a desprezar a opinião da maioria e se aproxima de um discurso autoritário. Muitas montagens retiram esse trecho para preservar o personagem. A diretora decidiu mantê-lo.

A verdade científica continua ao lado dele. A questão é o que um homem faz com essa verdade quando já não aceita ser contestado.

Quando a plateia precisa escolher

O júri não é um efeito previamente coreografado.

Os 11 espectadores acompanham o julgamento no palco e votam ao final. O resultado pode mudar a conclusão de cada sessão porque chega de pessoas diferentes, com experiências e posições próprias sobre ciência, turismo, economia, democracia e poder público.

Desde a estreia mundial, realizada em Salvador em outubro de 2025, a montagem passou por cidades brasileiras e festivais europeus sem registrar um veredito unânime. Na apresentação de 31 de julho, que encerrou a passagem pelo Festival Grec, em Barcelona, Stockmann foi absolvido por nove votos a dois.

O placar ganhou um peso particular numa cidade em que o turismo sustenta parte da economia e, ao mesmo tempo, pressiona a moradia e a vida cotidiana dos moradores. O conflito de Ibsen chegou ao palco já atravessado por uma discussão que Barcelona conhece fora dele.

O dispositivo também abre espaço para perguntas dos jurados, lidas por uma atriz convidada. Os resultados das votações são guardados pela equipe. A cada cidade, a mesma história encontra outra divisão.

Durante a passagem pela Espanha, Jatahy disse que queria conversar com uma “direita inteligente”. Não para suavizar o conflito, mas para permitir que o argumento contrário fosse ouvido antes do voto.

Uma parceria adiada por quase 20 anos

Jatahy e Moura queriam trabalhar juntos havia quase duas décadas, mas suas trajetórias seguiram por caminhos diferentes. A aproximação ganhou força quando o ator assistiu a Depois do Silêncio, em Los Angeles, e procurou a diretora dizendo que queria retornar ao teatro com ela.

Durante cerca de um ano, os dois leram peças, assistiram a filmes e conversaram sobre política, família e o Brasil. As divisões que atravessaram relações pessoais durante o governo Jair Bolsonaro levaram Jatahy a procurar uma história em que o conflito público também estivesse instalado dentro de casa.

Foi nesse processo que os irmãos Stockmann reapareceram.

O texto é assinado por Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. Julia Bernat e Danilo Grangheia dividem o palco com Moura. Louise Burke participa como atriz convidada. Marjorie Estiano, Jonas Bloch e Salvador Moura aparecem nas sequências filmadas.

A montagem mistura teatro e cinema. Documentos filmados funcionam como provas, enquanto uma câmera ganha espaço em cena e passa a integrar o próprio mecanismo do julgamento. Em Edimburgo, o espetáculo será apresentado em português e inglês, com legendas em inglês, e terá aproximadamente duas horas e meia, sem intervalo.

Nas cinco apresentações, a decisão não caberá à diretora, ao ator ou a uma autoridade escondida nos bastidores.

A última palavra será de 11 desconhecidos.

TeatroPedro Amaral
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