Uma Voz Humana estreia no Teatroiquè em criação que mistura peça, filme e show
Com Larissa Nunes em cena e direção de José Fernando Peixoto de Azevedo, montagem da Sociedade Arminda revisita Jean Cocteau para falar sobre amor, abandono e reinvenção
A Sociedade Arminda estreiou Uma Voz Humana no dia 20 de junho, no Teatroiquè, em São Paulo. Com direção de José Fernando Peixoto de Azevedo e atuação de Larissa Nunes, o espetáculo parte do clássico homônimo de Jean Cocteau, escrito em 1930, para investigar despedidas, silêncios, reinvenções e a potência de uma mulher que escolhe escutar a própria voz.
A montagem propõe uma experiência híbrida, que transita entre teatro, cinema e show. Em cena, música, imagem e presença ao vivo se articulam para acompanhar uma mulher no instante em que ela atravessa o fim de uma relação amorosa. O abandono, porém, não aparece apenas como perda: torna-se também a possibilidade de reorganizar a própria narrativa.
Quase um século depois de sua estreia na Comédie-Française, em Paris, o texto de Cocteau permanece atual ao tratar da solidão mediada pela tecnologia. Se, na década de 1930, o telefone era símbolo de modernidade, hoje ele evidencia uma contradição ainda mais familiar: estar conectado não significa, necessariamente, estar próximo.
Na versão da Sociedade Arminda, o foco se desloca do melodrama tradicional da mulher abandonada. A montagem acompanha uma personagem que, ao reconhecer os limites impostos pela relação, começa a abandonar também o lugar de dependência afetiva. A despedida, nesse processo, deixa de ser apenas um ponto final e passa a abrir espaço para uma nova forma de presença.
Em cena, Larissa Nunes interpreta uma cantora que prepara o repertório de um show enquanto conversa com uma pianista amiga e atende às ligações do amante ausente. Entre uma canção e outra, entre o que é dito e aquilo que permanece suspenso, a personagem passa a compreender que algumas histórias só terminam quando deixamos de habitá-las.
A música tem papel central na montagem. Canções negras de diferentes épocas e estilos surgem como uma espécie de segunda personagem, comentando, ampliando e reinventando os estados emocionais da protagonista. Ao piano, Eloiza Paixão conduz essa travessia musical, transformando a memória afetiva em matéria cênica.
Uma Voz Humana também aprofunda a pesquisa de José Fernando Peixoto de Azevedo sobre as fronteiras entre teatro e cinema. Instalado em um espaço que já foi estúdio cinematográfico, o Teatroiquè torna-se parte ativa da dramaturgia. Câmeras, projeções e uma grande tela revelam ao público a criação das imagens em tempo real, fazendo com que o filme nasça diante dos espectadores.
Para o diretor, a peça-filme é exatamente esse encontro entre linguagens. O cinema não aparece como ilustração ou comentário da ação, mas como parte da própria cena. Ao mesmo tempo, a presença ao vivo mantém o teatro como centro da experiência.
A parceria entre Larissa Nunes e José Fernando começou nos tempos da Escola de Arte Dramática, onde a atriz foi aluna do diretor. Nos últimos anos, Larissa construiu uma trajetória importante no audiovisual, com trabalhos em produções como Arcanjo Renegado, Anderson Spider Silva, Além da Ilusão, Nossa Vizinhança e O Gênio do Crime.
Para a atriz, voltar ao teatro não significa retornar a um lugar confortável, mas sair dele. O encontro com o texto de Cocteau nasceu de conversas sobre maturidade, coragem e relações afetivas, temas que atravessam a criação da personagem e a própria construção cênica.
Depois de Tragédia Linche Vol. I: Os Jovens Infelizes, inspirado na obra de Pier Paolo Pasolini, Uma Voz Humana reafirma a parceria entre a Sociedade Arminda e o Teatroiquè. Se o trabalho anterior investigava experiências de violência no campo social e racial, a nova montagem olha para as ruínas do afeto e para aquilo que pode surgir depois delas.
Mais do que narrar o fim de um amor, Uma Voz Humana acompanha uma mulher que aprende a escutar a si mesma. Entre peça, filme e show, o espetáculo propõe que toda despedida, antes de ser apenas fim, também pode ser uma forma de começo.
Serviço
Uma Voz Humana
Texto: Jean Cocteau
Direção: José Fernando Peixoto de Azevedo
Atuação: Larissa Nunes
Temporada: de 20 de junho a 20 de julho
Dias e horários: sextas-feiras, sábados e segundas-feiras, às 21h; domingos, às 18h
Sessão extra: 16 de julho, quinta-feira, às 21h
Local: Teatroiquè
Endereço: Rua Iquiririm, 110 – Butantã – São Paulo/SP
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Ingressos: de R$ 40,00 a R$ 80,00
Vendas: Byinti
Sobre a Sociedade Arminda
A Sociedade Arminda desenvolve projetos que investigam as relações entre teatro e cinema, além de temas ligados às tensões raciais, de classe e de gênero na sociedade brasileira. Entre os trabalhos recentes do coletivo estão Elisa em fuga: segundo ensaio sobre o terror, Depois do ensaio, Nora, Persona e Ensaio sobre o terror.
Sobre o Teatroiquè
Idealizado por Ricardo Grandi, o Teatroiquè ocupa um antigo estúdio de cinema no Butantã e propõe uma experiência cultural integrada, reunindo programação artística, convivência e bem-estar. Com estrutura modular, bares, deck ao ar livre e ambientação sonora, o espaço recebe espetáculos, shows, performances e atividades formativas.


