Três cinemas históricos do centro de São Paulo pedem R$ 12,1 milhões, e só um tem futuro definido
Cine Ipiranga, Cine Dom José e Cine Copan estão entre os 24 imóveis inscritos no novo chamamento da Prefeitura para reforma de edifícios no centro.
As propostas ainda passam por avaliação técnica, e apenas o Copan tem patrocinador, operador e data de reabertura.
Durante décadas, uma parte do centro de São Paulo podia ser percorrida praticamente de cinema em cinema. Agora, três salas que pertencem a momentos muito diferentes dessa história aparecem juntas na mesma tentativa de devolver atividade cultural à região.
Os três estão entre os 24 imóveis inscritos no quarto chamamento da Prefeitura de São Paulo para receber recursos destinados à reforma e restauração de edifícios no centro. Somados, os pedidos chegam a R$ 12,1 milhões: R$ 4,3 milhões para o Cine Ipiranga, R$ 4,2 milhões para o Cine Dom José e R$ 3,6 milhões para o Cine Copan.
Inscrição, porém, não significa dinheiro aprovado. As 24 propostas apresentadas somam R$ 98,1 milhões e ainda passarão por avaliação técnica. O chamamento disponibiliza até R$ 200 milhões, e cada projeto selecionado pode receber subsídio correspondente a até 25% do custo de sua requalificação, com valor final possivelmente diferente do solicitado.
Do cinema que apresentou a Nouvelle Vague à cidade ao cinema adulto
O caso mais inesperado é o do Cine Dom José, na Rua Dom José de Barros, ao lado da Galeria Olido, no coração da antiga Cinelândia paulistana. O espaço pertence hoje ao Grupo Tokyo, também responsável pela concessão do Edifício Martinelli.
Antes de ser Dom José, a sala nasceu como Cine Jussara, em 1951, projetada por Alfredo Mathias e Giancarlo Palanti e instalada num prédio que antes havia abrigado a Sociedade Germânia, atual Esporte Clube Pinheiros. Nos primeiros anos, ficou conhecida pela programação francesa, e registros históricos apontam que o Jussara ajudou a apresentar a Nouvelle Vague ao público paulistano, exibindo filmes que não circulavam pelos grandes circuitos comerciais.
Virou Cine Bruni em 1967 e, em 1976, Cine Dom José. Nas décadas seguintes, acompanhou a transformação da própria Cinelândia e passou a se dedicar ao cinema adulto, perfil que manteve até recentemente.
O espaço foi esvaziado para receber as filmagens de “Corações Solitários”, longa de Caru Alves de Souza cuja trama acompanha duas irmãs que herdam um cinema pornô. Durante as gravações, problemas como infiltrações expuseram o estado de conservação do imóvel.
Falar em revitalizá-lo, portanto, não é apenas reabrir uma sala fechada, e sim decidir qual será a próxima identidade de um cinema que nunca deixou completamente de existir. Até agora não foi divulgado qual modelo de programação o Grupo Tokyo pretende adotar caso o projeto avance.
O Ipiranga tenta voltar outra vez
Poucos endereços simbolizam tanto a antiga Cinelândia quanto o Cine Ipiranga, na esquina das avenidas Ipiranga e São João. Projetado por Rino Levi, foi inaugurado em 1943 com quase 2 mil lugares, combinando a sala de exibição monumental com o Hotel Excelsior em uma solução arquitetônica considerada inovadora para a época.
O Ipiranga fechou em 2005. Seus espaços internos foram tombados pelo Conpresp em 2009, e o conjunto formado pelo cinema e pelo antigo hotel recebeu proteção estadual pelo Condephaat em 2014. O tombamento preserva saguão, escadarias e a sala de espetáculos, mas permite adaptações para novos usos mediante aprovação dos órgãos de patrimônio.
Não é a primeira tentativa de devolvê-lo à cidade. Há cerca de seis anos, um projeto envolvendo o Grupo Omelete e o empresário Facundo Guerra chegou a ser desenvolvido e não avançou, entre outros fatores por causa dos impactos da pandemia.
Agora quem apresenta o pedido é a Viva do Brasil, organização responsável também pelo projeto do Cine Copan. E há um dado relevante na documentação do chamamento: a exibição cinematográfica aparece como uso principal previsto tanto para o Ipiranga quanto para o Copan. Pelo menos no papel, a proposta é recuperar o Ipiranga como cinema, e não restaurar um edifício histórico para lhe dar outra função.
O Copan já sabe o que vai ser
Entre os três, o Cine Copan é o projeto mais avançado. A reabertura foi anunciada em fevereiro pelo Nubank e pela Viva do Brasil. Fechado como cinema desde os anos 1980 e usado depois como igreja, o espaço deve retornar em 2027 com o nome Nu Cine Copan.
O projeto prevê cerca de 440 lugares, tela LED de 17 metros e sistema Dolby Atmos, além de foyer, bar, loja e integração com o espaço de arte contemporânea Pivô. A intenção é receber sessões regulares, festivais, lançamentos e encontros com artistas. A sala chegou a ser ocupada temporariamente este ano pelo espetáculo “Hamlet, Sonhos que Virão”, com Gabriel Leone, antes da reforma definitiva.
Os R$ 3,6 milhões solicitados precisam ser lidos, portanto, dentro de um projeto que já tem patrocinador, operador e programação conceitual definida. O mesmo não se pode dizer do Ipiranga e do Dom José.
Reabrir a porta é metade da questão
O chamamento deste ano abriu explicitamente a possibilidade de subvencionar cinemas de rua e outros equipamentos culturais no térreo dos imóveis, novidade em relação às edições anteriores. Se selecionado, o responsável terá de manter a categoria de uso beneficiada por pelo menos dez anos, o que ajuda a evitar que dinheiro público financie uma restauração cultural logo convertida em outro tipo de negócio.
Mas isso não responde à pergunta mais difícil, que é como manter um cinema de rua funcionando depois da inauguração. São Paulo já experimenta uma pequena retomada desse modelo: o Cine Bijou, fechado durante 26 anos, voltou à Praça Roosevelt em 2022 com programação voltada ao cinema independente, brasileiro e de repertório. O Copan aposta num modelo híbrido, em que cinema divide espaço com gastronomia, artes visuais e eventos. O futuro do Ipiranga e do Dom José ainda não foi detalhado publicamente.
Recuperar fachadas, poltronas e salas significa preservar patrimônio. Recuperar a função que esses lugares exerceram na cidade exige programação, preço acessível e formação de público.
Os projetos serão avaliados por critérios que incluem valor patrimonial, interesse urbanístico, integração com o território e impactos socioeconômicos. Depois do ranqueamento, a Prefeitura definirá quais serão credenciados e quanto cada um poderá efetivamente receber.
Fontes
Reportagem da Folha de S.Paulo, dados do portal Todos Pelo Centro, registros históricos do site Cinemas de SP, documentação da Prefeitura de São Paulo e da legislação municipal, anúncio do Nubank sobre o Nu Cine Copan e informações da TV Cultura.
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