“Rasga Coração” segue em cartaz no Teatro Oficina em homenagem a Villa-Lobos
Espetáculo musical do Oficina devora os “Choros” do compositor e celebra os 100 anos da estreia de “Choros nº 10 — Rasga o Coração”
O Teatro Oficina segue em cartaz com “Rasga Coração — Teatro Oficina devora Villa-Lobos”, espetáculo musical que celebra os 100 anos da estreia de “Choros nº 10 — Rasga o Coração”, de Heitor Villa-Lobos. A curta temporada acontece no teatro da companhia, no Bixiga, com apresentações até 25 de agosto.
Concebido por Felipe Botelho e Roderick Himeros, o espetáculo parte da obra de Villa-Lobos para criar um encontro entre música, cena, coro, banda e a linguagem antropofágica do Oficina. A montagem não se propõe apenas a executar Villa-Lobos, mas a devorá-lo: reorganizar seus sons, suas imagens e sua ideia de Brasil dentro da teatralidade radical que marca a companhia.
O ponto de partida é “Choros nº 10 — Rasga o Coração”, obra para coro e orquestra escrita em 1926. A composição integra a série dos Choros, conjunto criado por Villa-Lobos nos anos 1920, período em que o compositor também se aproximava das inquietações modernistas que atravessaram a Semana de Arte Moderna de 1922.
Villa-Lobos definiu essa pesquisa como uma espécie de “brasilofonia”, palavra que ajuda a compreender o interesse do Oficina pela obra. Os “Choros” não são apenas peças musicais: são experimentos de escuta do Brasil, atravessando tradição popular, invenção erudita, polifonia, rua, mata, cidade, canto e ruído.
Em “Rasga Coração”, esse material é reorquestrado pela banda e pelo coro de cantores-atuadores. Além dos “Choros”, a trilha também incorpora movimentos de “Floresta do Amazonas”, uma das últimas obras de Villa-Lobos, composta em 1958. O resultado é uma criação que aproxima o repertório do compositor da força cênica, vocal e corporal do Oficina.
A relação entre o Teatro Oficina e Villa-Lobos não começa agora. Desde “Macumba Antropófaga”, em 2011, a companhia incorpora a polifonia do compositor em seu repertório teatral. Ao longo dos anos, obras como “Choros nº 1”, “Lenda do Caboclo”, “Choros nº 3 — Pica-Pau”, “Choros nº 10 — Rasga o Coração” e a “Cantilena” das “Bachianas Brasileiras nº 5” atravessaram criações do grupo.
Esse diálogo faz sentido dentro da história do próprio Oficina. A companhia sempre trabalhou com a ideia de devoração como gesto estético e político: engolir referências, desmontar hierarquias, misturar tradição e presente, transformar patrimônio cultural em acontecimento vivo. Em “Rasga Coração”, Villa-Lobos não aparece como monumento intocável. Aparece como matéria em combustão.
A direção é de Felipe Botelho e Roderick Himeros. Botelho assina também a direção musical, enquanto Himeros responde pela direção cênica. A idealização é de Felipe Botelho e Marcelo Drummond. A direção de percussão e os arranjos de percussão são de Ito Alves.
No palco, banda e canto-atuação sustentam a fusão entre música e teatro. A instrumentação reúne sopros, guitarras, cavaquinho, violão, baixo, violoncelo, piano, bateria e percussão. A cena é conduzida por um elenco que canta, atua e atravessa os espaços do Oficina, transformando a partitura em corpo coletivo.
O título “Rasga Coração” carrega dupla referência. De um lado, remete à obra de Villa-Lobos, construída a partir de uma tradição musical brasileira que cruza o erudito e o popular. De outro, traduz algo muito próprio do Oficina: a ideia de uma arte que não pede licença, que abre o peito da cultura brasileira para expor suas contradições, excessos, afetos e violências.
A homenagem aos 100 anos da estreia de “Choros nº 10” também recoloca Villa-Lobos no centro de uma conversa sobre modernismo e permanência. Um século depois, sua música segue sendo disputada, reinterpretada e recriada. No Oficina, essa permanência não vem pela reverência silenciosa, mas pelo choque: o compositor entra em cena para ser cantado, tocado, atravessado e revirado.
Em tempos de comemorações modernistas muitas vezes tratadas como efeméride domesticada, “Rasga Coração” propõe outro caminho. Em vez de cristalizar Villa-Lobos como patrimônio distante, a montagem pergunta o que ainda pulsa em sua obra quando ela encontra um teatro feito de corpo, coro, festa, excesso e confronto.
A resposta vem em forma de musical teatral: Villa-Lobos sob a arquitetura aberta do Oficina, entre a memória do choro, a força do coro e a invenção de uma cena que insiste em fazer do Brasil uma matéria sonora indomável.
Serviço
Rasga Coração — Teatro Oficina devora Villa-Lobos
Direção: Felipe Botelho e Roderick Himeros
Direção musical: Felipe Botelho
Direção cênica: Roderick Himeros
Idealização: Felipe Botelho e Marcelo Drummond
Temporada: até 25 de agosto de 2026
Próximas apresentações: 24 e 25 de agosto, às 20h
Local: Teatro Oficina
Endereço: Rua Jaceguai, 520 — Bela Vista, São Paulo — SP
Ingressos: R$ 80 inteira | R$ 40 meia-entrada | R$ 30 para moradores do Bixiga, mediante comprovante de residência em nome próprio
Bilheteria: abre 1 hora antes do espetáculo
Duração: 110 minutos
Classificação indicativa: livre
Observação: sujeito à lotação da casa
Ficha técnica
Direção: Felipe Botelho e Roderick Himeros
Direção musical: Felipe Botelho
Direção cênica: Roderick Himeros
Idealização: Felipe Botelho e Marcelo Drummond
Arranjos de percussão e direção de percussão: Ito Alves
Banda:
Sopros: Beto Sporleder
Guitarra e cavaquinho: Guina Santos
Guitarra e violão: Moita Mattos
Baixo e violão: Felipe Botelho
Violoncelo: Amanda Ferraresi
Piano: Carlos Eduardo Samuel
Bateria: Gui Calzavara
Percussão: Ito Alves e Daniel Oliveira
Violão: Roderick Himeros
Arranjos de base: Amanda Ferraresi, Beto Sporleder, Felipe Botelho, Guina Santos e Moita Mattos
Canto-atuação: Alexandre Paz, Beatriz Id, Camila Fonseca, Cyro Morais, Danielle Rosa, Felipe Côrtes, Gabriel Frossard, Marcelo Dalourzi, Rafa Roman, Roderick Himeros, Rodrigo Bittes, Selma Paiva, Sylvia Prado, Tarcis Rocha, Tetê Purezempla e Tony Reis
Produção: Ana Sette, Filipe Fonseca e Tati Rommel
Direção de arte, figurino e make: Sonia Ushiyama Souto
Camareira: Cida Melo
Direção de vídeo: Cecília Lucchesi e Igor Marotti
Videoarte e direção de vídeo: Cecília Lucchesi
Câmera ao vivo: Cecília Lucchesi e Igor Marotti
Coordenação de som: Camila Fonseca
Operação de som: Clevinho
Microfonista: Nine
Desenho de luz: Victoria Pedrosa
Foco móvel de luz: Adler Christian e Monise Pedrosa
Administração: Anderson Puchetti
Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro / Ofício das Letras Comunicação



