São Paulo, BR YouTube ↗ Spotify ↗ Assine Anuncie

O Silêncio dos Inocentes ganha adaptação teatral e põe Hannibal Lecter a poucos metros do público

O Silêncio dos Inocentes ganha adaptação teatral e põe Hannibal Lecter a poucos metros do público
Imagem ilustrativa inspirada na tensão entre Clarice Starling e Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes. A cena não reproduz o elenco nem a montagem real do espetáculo. Crédito: Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial para o Foyer.

Adaptação do romance de Thomas Harris faz sua estreia mundial nos palcos britânicos e tenta recriar, com luz, espaço e atuação, a tensão que o cinema construiu com a câmera

Hannibal Lecter voltou a encontrar Clarice Starling. Desta vez, não existe uma tela entre eles e o público.

The Silence of the Lambs ganhou uma adaptação teatral que estreou mundialmente no Curve, em Leicester, no Reino Unido. A temporada começou em 1º de agosto e segue até o dia 15, antes de uma extensa turnê pelo Reino Unido e pela Irlanda que atravessa junho de 2027.

A peça parte diretamente do romance publicado por Thomas Harris em 1988, e não do filme de Jonathan Demme que transformou Anthony Hopkins e Jodie Foster em referências quase inseparáveis de Hannibal Lecter e Clarice Starling. A adaptação é assinada por Gina Gionfriddo, duas vezes finalista do Pulitzer, com direção de Nikolai Foster.

John Partridge interpreta Lecter. Mollie Gallagher, conhecida pela televisão britânica, faz sua estreia profissional no teatro como Clarice. Oliver Farnworth vive Jack Crawford e Sam Jackson assume Buffalo Bill.

O desafio da montagem começa justamente onde termina o poder do cinema.

Como fazer um close sem câmera

Grande parte da tensão de O Silêncio dos Inocentes ficou associada à maneira como Jonathan Demme filmava os encontros entre Clarice e Lecter. A câmera aproximava rostos, manipulava o olhar e transformava conversas em confrontos íntimos.

No palco, não existe zoom.

A crítica publicada nesta sexta-feira pelo The Guardian destaca como Nikolai Foster tenta criar equivalentes teatrais para esses recursos. Howard Hudson usa a iluminação para conduzir o olhar do público, enquanto a posição dos atores permite composições que lembram enquadramentos fechados. Em outros momentos, diferentes áreas do palco funcionam simultaneamente, produzindo algo próximo de uma tela dividida.

O resultado não tenta esconder que se trata de teatro. Faz justamente o contrário.

A ausência da câmera muda a relação com a história. O espectador deixa de acompanhar uma sequência de imagens escolhidas por um diretor de cinema e passa a decidir, dentro de um espaço aberto, para onde olhar. Foster utiliza luz, movimento e a organização das cenas para tentar recuperar parte do controle que o enquadramento exercia no filme.

É uma solução importante para uma adaptação que carregava um risco evidente: transformar o palco numa reprodução inferior de uma obra cinematográfica já consagrada.

Um Hannibal que precisa existir depois de Anthony Hopkins

John Partridge entra em cena acompanhado por uma atuação que aconteceu há 35 anos.

Anthony Hopkins venceu o Oscar pelo filme de 1991 e tornou determinados gestos, entonações e expressões de Lecter parte da cultura popular. Para qualquer novo ator, imitá-los seria uma armadilha.

As primeiras críticas indicam que Partridge procura outro caminho. O Guardian observa que ele evita alguns dos maneirismos mais reconhecíveis da interpretação de Hopkins e constrói um Lecter menos dependente da personalidade criada para o cinema.

Clarice carrega outro peso.

Mollie Gallagher faz sua estreia profissional no teatro em um papel eternamente associado a Jodie Foster, vencedora do Oscar pela versão cinematográfica. A crítica britânica identifica ecos dessa interpretação, inclusive no sotaque e na postura da personagem, mas descreve a estreia de Gallagher como segura.

Nesse ponto aparece uma das questões mais interessantes da montagem.

O público não chega ao Curve apenas conhecendo a história. Muitos chegam sabendo como Hannibal fala, como Clarice olha e até como determinados encontros deveriam parecer.

A peça precisa disputar espaço com uma memória.

O texto também muda

Gionfriddo não se limitou a transferir o romance para o palco.

A nova adaptação torna mais evidente o sexismo que cerca Clarice e amplia a presença dramática de personagens femininas que ocupavam menos espaço nas versões anteriores. O Guardian observa que a dramaturga dá maior agência a essas mulheres e relê partes do material a partir das mudanças culturais ocorridas desde os anos 1980.

É uma intervenção que responde a um problema comum às adaptações de obras muito conhecidas.

Reproduzir cada elemento preservaria o original, mas diminuiria a razão de existir de uma nova versão. Alterar demais poderia afastar justamente o público atraído pelo título.

A produção parece buscar um território intermediário: mantém a investigação de Clarice e seus encontros com Lecter no centro da narrativa, mas reorganiza relações e perspectivas para o palco de 2026. O próprio Curve define esses encontros como o coração da nova peça.

O cinema termina onde começa a plateia

Há ainda uma mudança que nenhuma adaptação dramatúrgica precisa escrever.

Ela acontece simplesmente porque o público está dentro da mesma sala que os personagens.

No filme, a câmera decide a distância entre o espectador e Hannibal Lecter. No Curve, essa distância é física. Voz, silêncio e presença chegam sem a mediação de uma montagem cinematográfica.

A crítica do Guardian aponta justamente para o impacto que certos momentos ganham quando acontecem ao vivo e não podem ser interrompidos por um corte de câmera.

Essa talvez seja a principal justificativa para levar O Silêncio dos Inocentes ao teatro.

Não reproduzir o filme, mas retirar sua proteção.

Uma turnê que atravessa 2027

Depois das apresentações em Leicester, a produção inicia uma grande circulação pelo Reino Unido e pela Irlanda. Entre as cidades anunciadas estão Newcastle, Glasgow, Aberdeen, Edimburgo, Nottingham, Belfast, Dublin, Birmingham, Brighton, Cardiff, Liverpool e Sunderland. As datas atualmente divulgadas chegam a 26 de junho de 2027.

A escala da turnê mostra que o projeto foi concebido para ir além de uma experiência pontual no Curve.

Também reforça uma tendência recorrente no teatro comercial britânico: títulos que chegam aos palcos carregando reconhecimento construído primeiro na literatura, no cinema ou na televisão.

O Silêncio dos Inocentes tem uma vantagem e um problema maiores do que quase todos eles.

O público já conhece Hannibal Lecter.

Agora a peça precisa convencê-lo de que ainda há alguma coisa naquele personagem que só pode ser encontrada quando ele está vivo, diante da plateia.

TeatroRedação Foyer

Leia também

Mais de Teatro