“O Dilema de Sidgwick” estreia no Teatro Sérgio Cardoso com entrada gratuita
Escrito por Paulo Gustavo Guedes Fontes, espetáculo parte da crise de fé do filósofo Henry Sidgwick para discutir razão, moral e existência
Um filósofo diante da própria consciência. Uma universidade atravessada por dogmas religiosos. Uma pergunta que não envelhece: como continuar ocupando um lugar quando já não se acredita nas regras que sustentam esse lugar?
É a partir desse conflito que “O Dilema de Sidgwick” estreia neste sábado, 8 de agosto, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Com texto de Paulo Gustavo Guedes Fontes, direção de Bruno Perillo e produção de Renata Bertelli, a montagem terá oito apresentações gratuitas na Sala Paschoal Carlos Magno, sempre aos sábados e domingos, às 18h30, até 30 de agosto.
A peça acompanha o filósofo inglês Henry Sidgwick em meio à Inglaterra vitoriana, período marcado por transformações científicas, religiosas e sociais. Sob o impacto das ideias de Charles Darwin, Sidgwick atravessa uma crise de fé e considera deixar a Universidade de Cambridge, que exigia de seus professores fidelidade ao credo anglicano.
O embate, no entanto, não se limita ao século XIX. Ao levar essa tensão para o palco, o espetáculo aproxima fé, razão, moral, Deus e a possibilidade de vida após a morte de questões que continuam nos acompanhando: o que significa agir corretamente? Até onde vai o compromisso individual com a verdade? E o que acontece quando a ética entra em conflito com a conveniência institucional?
Antes de chegar à cena, “O Dilema de Sidgwick” saiu como livro. Publicado em 2025 pela Lumen Juris, com o subtítulo “Filosofia e religião na Inglaterra vitoriana”, o texto marca a primeira incursão teatral de Paulo Gustavo Guedes Fontes, desembargador federal do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Essa passagem do papel ao palco dá ao projeto uma característica curiosa: trata-se de uma dramaturgia que nasce do pensamento filosófico, mas procura se comunicar com o público para além do vocabulário acadêmico. A proposta não é transformar Sidgwick em verbete, nem converter a cena em aula. O interesse está em observar um homem diante de suas contradições, tentando sustentar uma vida coerente em um mundo que cobra respostas definitivas.
Henry Sidgwick nasceu em 1838, em Skipton, no condado de Yorkshire, e passou praticamente toda a vida adulta ligado a Cambridge. Em 1869, renunciou à sua fellowship no Trinity College porque não conseguia mais subscrever, em consciência, os Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, exigência então associada ao cargo.
O gesto não foi apenas pessoal. Ao recusar um juramento que já não podia afirmar como verdadeiro, Sidgwick acabou participando de uma discussão maior sobre liberdade religiosa, universidade e pensamento crítico. Anos depois, voltaria a ocupar posições de destaque em Cambridge, tornando-se professor de filosofia moral.
Mas a peça não se limita à crise religiosa do filósofo. A trajetória de Sidgwick também passa pela defesa do acesso das mulheres ao ensino superior. Ele teve papel importante na criação do Newnham College, uma das primeiras instituições voltadas à formação universitária feminina na Inglaterra. A montagem ainda toca em outro interesse do pensador: sua ligação com a Society for Psychical Research, fundada em 1882, dedicada à investigação de fenômenos psíquicos e à discussão sobre a possibilidade de sobrevivência da consciência após a morte.
São temas que poderiam se perder em uma abordagem excessivamente explicativa. O desafio da montagem está justamente em transformar esse conjunto de ideias em matéria teatral. No palco, Sidgwick aparece menos como nome distante da história da filosofia e mais como alguém que tenta responder, com as ferramentas de seu tempo, a perguntas que seguem abertas.
A direção de Bruno Perillo conduz um elenco formado por Adriana Lessa, Augusto Zacchi, Amazyles de Almeida, Carlos de Niggro, Luiz Amorim, Silvio Giraldi e Tuna Dwek. A montagem também conta com cenografia de Simone Mina, figurinos de Marichilene Artisevskis e trilha sonora de Daniel Maia.
Em uma temporada gratuita, a peça chega a uma sala de 143 lugares, com seis espaços para cadeirantes. A retirada dos ingressos acontece na bilheteria do teatro, uma hora antes de cada apresentação.
Há ainda um detalhe prático importante para o público: durante os fins de semana de agosto, o Bixiga recebe a tradicional Festa de Nossa Senhora Achiropita, o que deve aumentar o movimento no entorno do teatro. Vale considerar transporte público ou aplicativo para chegar com mais tranquilidade.
“O Dilema de Sidgwick” encontra seu lugar justamente nesse cruzamento entre filosofia, teatro e acesso. Ao transformar uma crise de consciência do século XIX em cena contemporânea, o espetáculo propõe um encontro com um tipo de pergunta que talvez nunca tenha deixado de ser urgente: o que fazer quando pensar com honestidade começa a custar caro?
Serviço
O Dilema de Sidgwick
Texto: Paulo Gustavo Guedes Fontes
Direção: Bruno Perillo
Produção: Renata Bertelli
Companhia/artista na agenda do teatro: Athena Livros e Cursos Ltda.
Elenco: Adriana Lessa, Augusto Zacchi, Amazyles de Almeida, Carlos de Niggro, Luiz Amorim, Silvio Giraldi e Tuna Dwek
Temporada: de 8 a 30 de agosto de 2026
Datas: 8, 9, 15, 16, 22, 23, 29 e 30 de agosto
Horário: sábados e domingos, às 18h30
Local: Teatro Sérgio Cardoso — Sala Paschoal Carlos Magno
Endereço: Rua Rui Barbosa, 153 — Bela Vista, São Paulo — SP
Ingressos: gratuitos, com retirada na bilheteria uma hora antes de cada sessão
Bilheteria: aberta nos dias de espetáculo, das 14h até o início da atração
Telefone da bilheteria: (11) 3288-0136
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Capacidade: 143 lugares e seis espaços para cadeirantes



