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Núcleo Experimental leva “As Troianas” à Torre das Donzelas em remontagem de 20 anos

Núcleo Experimental leva “As Troianas” à Torre das Donzelas em remontagem de 20 anos
Foto: Anne Beatriz

Com direção de Zé Henrique de Paula e direção musical de Fernanda Maia, espetáculo estreia em 18 de agosto na sede do grupo, na Barra Funda

Para comemorar duas décadas de trajetória, o Núcleo Experimental revisita um de seus espetáculos mais marcantes: “As Troianas”. A nova montagem estreia no dia 18 de agosto, na sede do grupo, na Barra Funda, em São Paulo, e fica em cartaz até 7 de outubro, com sessões às terças e quartas-feiras, às 20h.

Com adaptação e direção de Zé Henrique de Paula e direção musical, composições e arranjos de Fernanda Maia, o espetáculo parte da tragédia de Eurípedes, escrita em 415 a.C., mas desloca sua ação para um capítulo específico da história brasileira: a ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, durante a ditadura militar.

A escolha muda o território da guerra sem abandonar sua ferida principal. Na obra original, depois da destruição de Troia, mulheres como Hécuba, Andrômaca e Cassandra aguardam o exílio, a escravidão e a separação de seus filhos, impostas pelos vencedores gregos. Privadas de casa, família e direitos, elas permanecem em cena com aquilo que ainda lhes resta: a palavra, o luto e a memória.

Na remontagem do Núcleo Experimental, essas mulheres encontram eco nas presas políticas encarceradas na chamada Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes. O prédio, localizado na Avenida Tiradentes, serviu como carceragem para presos políticos que sobreviviam às torturas do DOPS e do DOI-CODI. Na torre central, ficavam mulheres perseguidas pelo regime militar.

A nova versão, intitulada “As Troianas — música nas trevas”, tem como inspiração o livro “A Torre: O cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura”, de Luiza Villaméa. A montagem cria um paralelo entre as mulheres troianas, transformadas em espólio de guerra, e as mulheres brasileiras perseguidas, torturadas e silenciadas pelo Estado durante a ditadura.

O encontro entre os dois contextos não é apenas narrativo. Ele torna visível uma continuidade histórica: em diferentes épocas, regimes autoritários fizeram do corpo feminino um território de dominação, punição e controle. Nas guerras antigas ou nos porões da ditadura, a violência contra mulheres não aparece como efeito colateral. Ela é parte da manutenção do poder.

Ao situar Eurípedes no Presídio Tiradentes de 1972, o Núcleo Experimental amplia a pergunta política da tragédia. O que acontece com uma sociedade quando a dor das mulheres é tratada como ruído? E o que resta quando mães, filhas, militantes e sobreviventes precisam transformar a própria voz em forma de resistência?

A primeira montagem de “As Troianas” pelo Núcleo Experimental estreou em 2009 e foi indicada aos prêmios Shell, Cooperativa Paulista de Teatro e Quem em diversas categorias. Naquela versão, a tragédia era recontextualizada em um campo de concentração na Polônia, às vésperas do fim da Segunda Guerra. As personagens femininas se expressavam apenas pelo canto, em uma pesquisa musical baseada em canções de povos e etnias refugiadas.

Agora, a música volta a ocupar papel central. Em texto sobre a criação, Fernanda Maia define a trilha como um território de memória, denúncia e resistência. A composição dialoga com a canção de protesto brasileira e latino-americana, evocando artistas que enfrentaram regimes autoritários por meio da música.

Na montagem, o coro feminino, elemento fundamental da tragédia grega, transforma-se em uma comunidade de mulheres privadas de liberdade. Não é apenas um grupo que comenta a ação. É a voz coletiva de quem compartilha medo, lembrança, revolta e esperança. As canções oscilam entre delicadeza e indignação, entre o mundo perdido e a necessidade de continuar vivendo.

Esse ponto aproxima a peça de um dado histórico fundamental: na vida real, presas da Torre das Donzelas chegaram a montar uma peça dentro da cela. Encenar, naquele contexto, era uma maneira de preservar humanidade, convívio e existência diante da tentativa de apagamento promovida pelo regime.

Por isso, a remontagem não trata o teatro apenas como representação da dor. Ela olha para a cena como gesto de sobrevivência. Ao trazer “As Troianas” para dentro da Torre, o Núcleo Experimental recupera uma tradição em que cantar, atuar e narrar podem se tornar formas de não desaparecer.

O elenco reúne Bia Reze, Brian Penido Ross, Bruna Guerin, Edyelle Brandão, Fabio Redkowicz, Fernando Tavares, Giovanna Sassi, Larissa Noel, Laura Sciulli, Mari Rosinski, Nábia Villela, Patrícia Gifford, Vanessa Espósito e Victor Edwards.

Na ficha técnica, além de Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia, estão Gabriel Malo na direção de movimento, Fran Barros no desenho de luz, João Baracho no desenho de som, Rafa Miranda na preparação vocal e Rebeca Reis na produção.

Ao revisitar “As Troianas” em seu aniversário de 20 anos, o Núcleo Experimental não apenas remonta um sucesso de sua trajetória. Reabre uma obra para outra ferida histórica. Se, em Eurípedes, a guerra deixa mulheres sem pátria, sem filhos e sem futuro, na ditadura brasileira a violência de Estado também tentou interromper vidas, vozes e projetos políticos.

A nova montagem olha para esses dois tempos como espelhos incômodos. E lembra que, quando mulheres silenciadas ganham palco, a tragédia deixa de ser apenas memória antiga. Vira denúncia, presença e resistência.

Sinopse

Troia foi destruída. Suas mulheres, Hécuba, Andrômaca, Cassandra e as demais troianas aguardam o exílio, a escravidão e a separação de seus filhos, impostos pelos vencedores gregos.

Mas o cenário da montagem do Núcleo Experimental não é a Grécia Antiga. É a Torre das Donzelas, ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, em 1972, onde a ditadura militar brasileira encarcerava mulheres por sua militância política.

Inspirado no livro “A Torre”, de Luiza Villaméa, o espetáculo cria um paralelo entre o destino das troianas e o das presas políticas, colocando em cena o corpo, a voz e a memória das mulheres diante da violência de Estado.

Serviço

As Troianas
Adaptação e direção: Zé Henrique de Paula
Direção musical, composições e arranjos: Fernanda Maia
Realização: Núcleo Experimental — 20 anos

Temporada: de 18 de agosto a 7 de outubro de 2026
Sessões: terças e quartas-feiras, às 20h
Observação: todas as sessões serão seguidas por bate-papo com o elenco

Local: Teatro do Núcleo Experimental
Endereço: Rua Barra Funda, 637 — Barra Funda, São Paulo — SP

Ingressos: R$ 40 inteira | R$ 20 meia-entrada
Vendas: Sympla
Duração: 90 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Capacidade: 65 lugares

Teatro MusicalIsabel Branquinha

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