Lilly Wachowski relata dificuldade para financiar filme com elenco trans em Hollywood
Diretora de “Matrix” tenta viabilizar “The Hunted”, thriller político de US$ 10 milhões, em um mercado que ainda quase não coloca pessoas trans no centro do cinema
Mais de duas décadas depois de codirigir um dos filmes mais influentes do cinema contemporâneo, Lilly Wachowski afirma estar encontrando dificuldade para financiar seu próximo longa-metragem. O motivo, segundo a própria cineasta, está diretamente ligado ao elenco que pretende colocar diante das câmeras.
O projeto se chama “The Hunted”. Escrito por Wachowski em parceria com Mickey Ray Mahoney, o filme é descrito como um thriller político de orçamento estimado em US$ 10 milhões. Em entrevista ao podcast “The Business”, da rádio norte-americana KCRW, a diretora afirmou que o roteiro tem sido bem recebido por pessoas da indústria, mas que o financiamento não avançou por causa da presença de um elenco trans “de ponta a ponta”.
A declaração precisa ser lida com cuidado. Até agora, não há manifestações públicas de investidores ou empresas que tenham sido procurados por Wachowski, nem documentos que permitam identificar quem recusou o projeto ou quais justificativas formais foram apresentadas. O que existe, portanto, é o relato da cineasta sobre uma resistência que ela diz encontrar no mercado.
Mas esse relato não aparece em um vácuo.
Em julho, a GLAAD divulgou seu levantamento “Where We Are in Film”, estudo que substitui e amplia o antigo Studio Responsibility Index. A pesquisa analisou 225 filmes lançados em 2025 por dez grandes distribuidoras, incluindo Netflix, Disney, Warner Bros. Discovery, NBCUniversal, Sony, Paramount Skydance, Amazon, Apple, Lionsgate e A24.
Dos 225 títulos analisados, 46 apresentavam personagens LGBTQ, o equivalente a 20,4% do total. O índice marca o terceiro ano consecutivo de queda na proporção de filmes com representação LGBTQ. Em 2022, esse percentual havia chegado a 28,5%. O dado mais duro, porém, está em outro ponto: entre os 112 personagens LGBTQ contabilizados pela organização, nenhum era personagem trans.
Os números da GLAAD não provam, por si só, que exista uma política coordenada contra filmes protagonizados por pessoas trans. Mas ajudam a entender por que o caso de Wachowski chama atenção. Quando uma diretora associada a “Matrix” não consegue levantar US$ 10 milhões para um thriller político com elenco trans, a questão deixa de parecer apenas individual. Ela aponta para uma distância entre o discurso de diversidade da indústria e a disposição real de financiar determinadas histórias.
Um projeto escrito a partir do presente
Lilly Wachowski descreveu “The Hunted” como um roteiro especialmente pessoal. Segundo a cineasta, o filme nasceu como resposta ao momento vivido por pessoas trans e como uma forma de transformar raiva, frustração e indignação em narrativa.
A trajetória de Wachowski torna esse impasse ainda mais simbólico. Ao lado da irmã Lana Wachowski, ela codirigiu “Matrix”, lançado em 1999, além de suas primeiras continuações. A dupla também assinou filmes como “Ligadas pelo Desejo”, “Speed Racer”, “A Viagem” e “O Destino de Júpiter”, além de cocriar a série “Sense8”.
Ou seja: não se trata de uma realizadora desconhecida tentando abrir a primeira porta da indústria. Trata-se de uma cineasta ligada a uma das franquias mais reconhecidas da cultura pop contemporânea dizendo que não consegue financiamento para um projeto relativamente modesto dentro dos padrões de Hollywood.
O orçamento estimado de US$ 10 milhões também é relevante. Para o cinema independente norte-americano, é um valor expressivo. Para Hollywood, não está perto das cifras dos grandes blockbusters. O contraste entre o tamanho do orçamento e a dificuldade relatada pela diretora torna a discussão ainda mais incômoda.
O caso expõe uma pergunta que costuma ficar escondida atrás dos anúncios de elenco, festivais e estreias: quem decide quais histórias merecem existir? A representação na tela não começa no casting, nem no cartaz. Começa antes, quando alguém escolhe se um roteiro receberá dinheiro suficiente para sair do papel.
A leitura pública como caminho alternativo
Diante da dificuldade de financiamento, Wachowski buscou outra forma de colocar “The Hunted” diante do público. A diretora organizou uma leitura pública do roteiro no Dynasty Typewriter, em Los Angeles, reunindo artistas para apresentar a história ao vivo.
A escolha tem algo de pragmático e simbólico. Pragmaticamente, permite que o texto circule e encontre audiência mesmo antes de virar filme. Simbolicamente, desloca a obra de uma negociação fechada entre agentes, produtores e investidores para uma experiência pública, compartilhada com a comunidade que ela pretende representar.
Wachowski afirmou que precisou ser criativa para encontrar formas de fazer o projeto chegar às pessoas. A leitura não substitui o filme que ela imaginou, mas funciona como uma resposta possível à paralisia do financiamento. Se a indústria não abre caminho, a obra tenta aparecer por outra fresta.
Esse movimento conversa com a criação da Anarchists United Foundation, iniciativa sem fins lucrativos da qual Wachowski faz parte. A organização se apresenta como um projeto voltado a construir um ecossistema artístico e econômico mais sustentável, com apoio a vozes historicamente sub-representadas no cinema e na televisão.
A fundação também nasce em reação a um cenário de retração. Com estúdios mais cautelosos, fusões corporativas, cortes em streaming e maior aversão ao risco, projetos autorais ou protagonizados por grupos marginalizados tendem a enfrentar ainda mais resistência. É nesse contexto que Wachowski parece tentar redesenhar sua relação com o sistema que ajudou a marcar.
O apagamento trans no cinema de estúdio
A ausência de personagens trans no levantamento da GLAAD ajuda a dimensionar o problema. Em um ano inteiro de lançamentos das principais distribuidoras analisadas, nenhum personagem trans foi contabilizado pela organização. Isso não significa que pessoas trans não estejam criando, atuando ou circulando no audiovisual. Significa que, dentro do recorte das grandes distribuidoras, essa presença não apareceu como personagem identificável nos filmes avaliados.
O dado é especialmente grave porque a representação trans no cinema sempre foi atravessada por distorções. Durante décadas, personagens trans foram frequentemente tratados como ameaça, piada, trauma ou revelação escandalosa. A luta por representação não diz respeito apenas a aparecer mais, mas a aparecer de outro modo: com complexidade, centralidade e participação de artistas trans em todos os níveis da criação.
Nesse sentido, o projeto de Wachowski desloca a discussão. “The Hunted” não propõe apenas incluir um personagem trans em uma trama majoritariamente cisgênera. Segundo a própria diretora, o filme foi concebido com um elenco trans de ponta a ponta. A diferença é importante. Não se trata de exceção dentro da narrativa. Trata-se de colocar pessoas trans no centro do mundo ficcional.
É justamente esse centro que Hollywood ainda parece tratar como risco.
O paradoxo é evidente. Nos últimos anos, a indústria se acostumou a usar diversidade como linguagem institucional: painéis, campanhas, comunicados, prêmios, programas de inclusão. Mas a prova concreta desse discurso continua sendo financeira. Diversidade, no cinema, também se mede em orçamento aprovado, equipe contratada, distribuição garantida e espaço de lançamento.
Quando esses recursos não chegam, a promessa fica incompleta.
O que o caso diz sobre Hollywood agora
A dificuldade relatada por Lilly Wachowski acontece em um momento delicado para o audiovisual norte-americano. O mercado ainda sente os efeitos de transformações profundas no streaming, da retração de investimentos, da busca por propriedades intelectuais mais seguras e de um ambiente político cada vez mais hostil a pautas LGBTQ, especialmente trans.
Esse contexto não explica tudo, mas ajuda a entender a cautela de investidores. Projetos com elencos trans, temas políticos e orçamento médio podem ser vistos como difíceis de vender em um mercado que tenta reduzir riscos. O problema é que essa lógica, quando aplicada sem questionamento, reproduz exatamente o apagamento que os estúdios dizem querer superar.
Lilly Wachowski conhece Hollywood por dentro. Sua carreira foi construída em diálogo com gêneros populares: ficção científica, ação, thriller, melodrama, fantasia, televisão serializada. Por isso, “The Hunted” não parece uma tentativa de abandonar o entretenimento em nome de uma tese. Ao contrário: a diretora tenta trabalhar com cinema de gênero para discutir perseguição, violência política e sobrevivência trans.
Essa talvez seja a parte mais importante da pauta. Filmes com personagens trans não precisam existir apenas como dramas educativos ou retratos de sofrimento. Também podem ser thrillers, ficções políticas, filmes de ação, comédias, terror, aventura. Podem ocupar os mesmos gêneros que Hollywood financia há décadas — desde que a indústria aceite que o público dessas histórias também existe.
Por enquanto, “The Hunted” segue em busca de caminho. A leitura pública mostrou uma forma de manter o projeto vivo, mas o filme ainda depende de financiamento para se tornar cinema. O impasse deixa uma pergunta maior para Hollywood: inclusão é um valor de discurso ou uma decisão de orçamento?
No caso de Lilly Wachowski, a resposta ainda não veio.



