“Game of Thrones” encara o palco em espetáculo de quase quatro horas e crítica avalia se Westeros funciona no teatro
Royal Shakespeare Company reúne 36 artistas, reconfigura seu principal teatro e aposta em marionetes, fogo e recursos cênicos para levar o universo de George R. R. Martin ao palco
Como colocar Westeros em um teatro sem simplesmente tentar reproduzir aquilo que a televisão fez com efeitos digitais e orçamentos gigantescos?
A Royal Shakespeare Company decidiu responder à pergunta em grande escala. “Game of Thrones: The Mad King”, que teve sua abertura oficial em 8 de agosto, em Stratford-upon-Avon, tem cerca de três horas e 45 minutos de duração, incluindo intervalo, reúne 36 artistas e transforma o Royal Shakespeare Theatre para contar uma história situada antes dos acontecimentos que abriram “Game of Thrones”.
A produção é a primeira peça teatral ambientada no universo criado por George R. R. Martin, que participa como produtor executivo. O texto é de Duncan Macmillan, dramaturgo de “People, Places & Things” e “Every Brilliant Thing”, com direção de Dominic Cooke.
A trama retorna aos últimos anos do reinado de Aerys II Targaryen, o Rei Louco, e passa pelo torneio de Harrenhal, acontecimento decisivo na história de Westeros e diretamente ligado à sequência de eventos que levaria à queda da dinastia Targaryen.
Pelo palco aparecem versões mais jovens de personagens conhecidos do público, entre eles Ned Stark, Robert Baratheon, Jaime e Cersei Lannister, Lyanna Stark e o príncipe Rhaegar Targaryen.
Mas é menos a possibilidade de rever esses personagens e mais a maneira encontrada para materializar Westeros diante da plateia que vem concentrando a atenção da crítica britânica.
Cavalos, dragões e fogo sem efeitos digitais
Para receber “The Mad King”, o Royal Shakespeare Theatre teve sua configuração tradicional alterada. Uma estrutura em forma de cruz avança pelo espaço e coloca partes da ação cercadas pelo público, criando perspectivas diferentes para torneios, confrontos e encontros entre os personagens.
Em vez de esconder as limitações do palco, a produção parece assumir justamente aquilo que diferencia o teatro da televisão.
Cavalos em tamanho real são construídos por meio de grandes estruturas manipuladas por artistas, numa solução de marionetes que despertou comparações com “War Horse”. Cães e dragões também ganham forma a partir do puppetry, enquanto fogo, fumaça, grandes portões e uma árvore monumental integram a cenografia assinada por Chloe Lamford.
As primeiras críticas indicam uma recepção majoritariamente positiva, mas não sem ressalvas.
O WhatsOnStage deu cinco estrelas ao espetáculo e destacou sua capacidade de atender aos fãs de George R. R. Martin sem tornar a narrativa inacessível a espectadores menos familiarizados com a extensa mitologia de Westeros.
O Telegraph também recebeu a montagem de forma positiva, com quatro estrelas. Já o Independent, igualmente com quatro estrelas, chamou atenção para a proximidade entre o universo criado por Martin e o teatro de Shakespeare, uma relação particularmente evidente numa produção realizada pela própria Royal Shakespeare Company.
O Guardian reconheceu o impacto das soluções cênicas, mas apontou problemas de ritmo e repetição em determinados momentos, especialmente na primeira parte. A crítica também observou que a experiência tende a ganhar outra dimensão para quem já conhece personagens, famílias e acontecimentos do universo de “Game of Thrones”.
As avaliações mais duras vieram de veículos como o Times e o Financial Times, ambos com três estrelas. Entre as ressalvas aparecem o ritmo, algumas cenas de combate e a dificuldade de transportar para o palco a brutalidade que se tornou uma das marcas da adaptação televisiva.
A própria duração entrou na conversa. A produção tem aproximadamente 225 minutos, incluindo intervalo, um tempo que aproxima “The Mad King” das grandes epopeias teatrais e exige do público um investimento consideravelmente maior do que o de um espetáculo convencional.

De Shakespeare a Westeros
A associação entre “Game of Thrones” e a Royal Shakespeare Company pode parecer improvável à primeira vista, mas está longe de ser gratuita.
Disputas de sucessão, famílias rivais, ambição, profecias, assassinatos e governantes consumidos pelo próprio poder atravessam tanto Westeros quanto boa parte das tragédias e peças históricas de Shakespeare.
Macmillan e Cooke exploram essa proximidade ao transportar a história para um espaço conhecido justamente por transformar guerras, duelos e quedas de reinos em acontecimentos possíveis diante de uma plateia.
A montagem também chega em um momento estratégico para a própria RSC. A companhia passou por uma reestruturação destinada a reduzir sua base anual de custos em cerca de £2,8 milhões e vem ampliando sua relação com títulos capazes de atrair espectadores para além do público tradicional de Shakespeare.
A estratégia já encontrou um caso emblemático em “My Neighbour Totoro”, sucesso teatral desenvolvido pela companhia a partir do filme do Studio Ghibli.
Com “The Mad King”, a aposta ganha uma dimensão ainda maior. A temporada estava esgotada quando a produção chegou à abertura oficial.
É aí que o experimento se torna particularmente interessante. O verdadeiro teste não é descobrir se um dragão pode existir no palco. O teatro já mostrou inúmeras vezes que pode criar mundos inteiros com madeira, tecido, luz e corpos humanos.
A questão é saber se uma franquia construída para milhões de espectadores diante de uma tela consegue transformar parte desse público em plateia de teatro.
Se conseguir, “Game of Thrones: The Mad King” terá encontrado algo mais valioso do que uma versão teatral de Westeros: uma maneira de usar uma das maiores propriedades da cultura pop contemporânea para lembrar que, a poucos metros do público, uma batalha feita de atores, objetos e imaginação ainda pode competir com qualquer efeito digital.
“Game of Thrones: The Mad King” fica em cartaz no Royal Shakespeare Theatre, em Stratford-upon-Avon, até 5 de setembro.



