“Abdias do Nascimento” faz três sessões no Teatro J. Safra com Lincoln Oliveira no papel-título
O espetáculo Abdias do Nascimento, idealizado e protagonizado por Lincoln Oliveira, realiza três sessões no Teatro J. Safra, na Barra Funda, entre 7 e 9 de agosto: sexta-feira às 21h, sábado às 20h e domingo às 18h.
O texto é de Ivan Jaf e Diego Ferreira, a direção é de Johayne Hildefonso e Iléa Ferraz, e os ingressos custam a partir de R$ 25, à venda pela Eventim.
A montagem não percorre a biografia em linha reta. A ação se passa no primeiro dia de ensaio de uma peça sobre Abdias do Nascimento, e há dois personagens em cena: o ator escalado para o papel-título, vivido por Lincoln Oliveira, e o diretor daquele ensaio, interpretado por Fernando Porto. Conforme o trabalho avança, os dois saem de seus personagens e passam a falar de si e do racismo que atravessa a própria rotina.
O ensaio como matéria da peça
A escolha do metateatro desloca o foco. A dramaturgia se ocupa do esforço de encenar essa vida, e o que o público acompanha é uma peça sendo montada. O material de divulgação descreve o que se constrói ali como uma memória afetiva, e não uma simples recriação de fatos históricos. "Teatro de Memória e Resistência" é a expressão que a produção usa para o espetáculo desde a estreia.
"A preservação da memória sobre a história de Abdias do Nascimento é mais do que uma simples homenagem; é um grito de resistência e um convite para que o público, também ele, se reconheça na história", afirma Lincoln Oliveira.
Completam a ficha técnica o cenário e o figurino de Monica Carvalho e Nello Marrese, a iluminação de Daniela Sanchez e a trilha sonora de André Abujamra. A coordenação geral e a produção executiva são de Beto Bruno e Dora Lima, e a realização é da Evoé Produções Artísticas.
De Franca ao Teatro Experimental do Negro
Abdias Nascimento nasceu em março de 1914 em Franca, no interior de São Paulo, neto de africanos escravizados, filho de um sapateiro e de uma doceira. A biografia publicada pelo Ipeafro, instituto que ele próprio criou em 1981, registra que trabalhou desde os sete anos de idade e se formou economista pela Universidade do Rio de Janeiro em 1938. Preso na Penitenciária de Carandiru por resistir à discriminação racial na capital paulista, fundou ali, em 1943, o Teatro do Sentenciado, grupo em que os próprios detentos escreviam, ensaiavam e apresentavam seus espetáculos.
O Teatro Experimental do Negro veio no ano seguinte, em 1944, no Rio de Janeiro. A entidade denunciava a segregação nos palcos brasileiros, a começar pela prática de pintar atores brancos de negro para papéis dramáticos, e oferecia cursos de alfabetização e de cultura geral a seus integrantes: empregados domésticos, trabalhadores e operários, desempregados e funcionários públicos. Dali saiu a primeira geração de atores e atrizes negros do país. Entre as personalidades que o Ipeafro reúne ao lado de Abdias estão Ruth de Souza e Léa Garcia, duas trajetórias que o Sesc Pompeia devolveu ao palco paulistano em Ruth & Léa.
Sob a liderança de Abdias, o TEN organizou a Convenção Nacional do Negro, entre 1945 e 1946, que propôs à Assembleia Nacional Constituinte enquadrar a discriminação racial como crime, além da Conferência Nacional do Negro, em 1949, e do 1º Congresso do Negro Brasileiro, em 1950.
Abdias foi deputado federal, senador da República e secretário de governo no Estado do Rio de Janeiro. Depois do Ato Institucional nº 5, editado em dezembro de 1968, ficou impedido de voltar ao Brasil e passou 13 anos exilado nos Estados Unidos e na Nigéria. Em 2010, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Morreu em 2011.
Do Rio para uma passagem curta em São Paulo
O espetáculo estreou em 24 de abril de 2025 no Teatro Sesc Copacabana, no Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz até 18 de maio daquele ano, com sessões de quinta a domingo. Voltou à cidade em 2026, no Centro Cultural Justiça Federal, em temporada de 7 a 24 de maio.
"Por trás das luzes do palco, o ensaio revela muito mais do que a construção de uma peça teatral. Ele é, em si, um ato político, de resistência e liberdade", diz a diretora Johayne Hildefonso.
São três apresentações em um único fim de semana. O Teatro J. Safra tem 627 lugares e abre as portas duas horas antes de cada sessão.
Serviço
Abdias do Nascimento
Teatro J. Safra, Rua Josef Kryss, 318, Barra Funda, São Paulo
Sexta-feira, 7 de agosto, às 21h; sábado, 8 de agosto, às 20h; domingo, 9 de agosto, às 18h
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos a partir de R$ 25, à venda pela Eventim
Elenco: Lincoln Oliveira e Fernando Porto
Texto: Ivan Jaf e Diego Ferreira
Direção: Johayne Hildefonso e Iléa Ferraz
Realização: Evoé Produções Artísticas



